Do "canto esquecido" ao "novo queridinho de proteção": temporada de resultados da bolsa europeia surpreende o mercado, com crescimento de lucros de 22% e maior alta em quatro anos
A forte temporada de resultados financeiros e a queda nos preços do petróleo estão aumentando conjuntamente o apelo de ativos de refúgio do mercado de ações europeu. Ao mesmo tempo, investidores estão retornando ao mercado europeu, vendo-o como uma opção de hedge diante da alta volatilidade das ações globais de tecnologia.
De acordo com o app de notícias financeiras WiseFinance, uma forte temporada de resultados e a queda dos preços do petróleo estão aumentando o apelo de aversão ao risco das bolsas europeias. Ao mesmo tempo, investidores estão retornando aos mercados europeus, enxergando-os como uma alternativa para proteger-se da alta volatilidade das ações globais de tecnologia. Dados da FactSet indicam que o crescimento dos lucros das empresas europeias no segundo trimestre deste ano pode chegar a 22% em relação ao mesmo período de 2023, atingindo o melhor desempenho desde que o mercado global se recuperou da crise da pandemia em 2022, resistindo com sucesso aos impactos negativos dos elevados preços de energia vistos anteriormente.
Marina Zavolock, estrategista de ações europeias do Morgan Stanley, afirmou que esta é uma “temporada de resultados excepcional” para as bolsas da Europa, destacando que “o desempenho dos lucros tem sido muito positivo em praticamente todos os setores”.
Dados mostram que, em julho, os ETFs de ações europeias registraram o primeiro fluxo líquido mensal positivo desde o início do conflito entre Estados Unidos e Irã no final de fevereiro. A BlackRock informou que seus produtos de ações europeias atraíram US$ 4,4 bilhões em entradas durante julho, destacando que isso “mostra uma realocação de capital baseada em momentum contrário”, com retirada de recursos do segmento volátil de ações de chips.
Os investidores retribuíram positivamente o forte desempenho, levando o índice europeu Stoxx 600 a novas máximas históricas na semana passada. Outros índices importantes, como o DAX da Alemanha, o FTSE 100 do Reino Unido, o CAC 40 da França e o IBEX da Espanha, também renovaram seus recordes.
Zavolock apontou que o crescimento robusto dos lucros trouxe interesse adicional em “diversificação” para as ações da Europa nas últimas semanas. Segundo investidores, a forte liquidação vivida pelas ações globais de semicondutores em julho fez o mercado redirecionar seu olhar para regiões como a Europa, cujos retornos estão menos correlacionados com a volatilidade das empresas de tecnologia e IA.
As ações de bancos se destacaram entre as vencedoras da temporada de balanços do segundo trimestre europeu, beneficiadas pela alta dos juros impulsionada pelo aumento dos preços do petróleo e pelo crescimento das receitas de negociação em meio à volatilidade dos mercados. O lucro trimestral do BNP Paribas saltou em um terço, enquanto o do UBS subiu 17% para um recorde histórico, ambos impulsionados pelos ganhos em receitas de trading. O subíndice bancário do Stoxx Europe superou amplamente o mercado, acumulando alta superior a 21% no ano, bem acima do avanço de 11,5% do índice Stoxx 600.
As ações de tecnologia da Europa também tiveram papel relevante no crescimento dos lucros do índice, com fabricantes de chips como ASML e Infineon revisando para cima suas projeções de receita anual. As ações de energia também tiveram grande peso na expansão dos lucros do segundo trimestre da Europa, período em que os preços de petróleo e gás estavam elevados.
Hugh Gimber, estrategista global de mercados da J.P. Morgan Asset Management, disse: “Se a Europa conseguir alcançar um crescimento de lucros de dois dígitos percentuais até 2026, será um resultado extremamente forte para uma economia cujas perspectivas de crescimento de lucros corporativos vinham sendo bastante questionadas pelos investidores.” Ele acrescentou que isso “tem sustentado o movimento de rotação de recursos para a Europa”.
Durante grande parte do segundo trimestre deste ano, as bolsas europeias ficaram atrás de Wall Street, principalmente devido ao conflito entre Estados Unidos e Irã e ao virtual fechamento do Estreito de Ormuz, que provocaram disparada dos preços de petróleo e gás — algo visto como especialmente negativo para economias europeias importadoras de energia. Porém, sinais de tentativa de reaproximação entre Estados Unidos e Irã fizeram com que o preço do petróleo recuasse para abaixo de US$ 90 por barril, melhorando as perspectivas econômicas europeias e permitindo que investidores voltassem a considerar a região.
Beata Manthey, chefe de estratégia de ações europeias do Citi, disse que a diminuição das tensões no Oriente Médio significa que a Europa pode ter escapado do pior cenário econômico, marcado por preços de energia elevados, frisando que “isso já gerou forte entrada de recursos” nas bolsas europeias. Ao mesmo tempo, “os investidores internacionais estão voltando a ver a Europa com bons olhos, pois representa uma espécie de ‘aposta contrária à IA’”, afirmou.
Apesar dos preços de energia elevados, a economia da zona do euro superou as expectativas e cresceu 0,4% no segundo trimestre, fator que, segundo investidores, também eleva o apetite por ativos europeus.
Porém, o lucro das empresas europeias ainda fica atrás do desempenho excepcional das americanas — que também tiveram uma temporada de resultados brilhante, com crescimento de 50% no lucro ano a ano, de acordo com a FactSet. Apesar do recente rali dos mercados europeus, o índice S&P 500 segue ligeiramente à frente do Stoxx 600 no acumulado do ano.
No entanto, Vera Fehling, Chief Investment Officer para a Europa Ocidental da DWS, destacou: “Por um longo período, o crescimento dos lucros na Europa foi praticamente zero. Agora, entretanto, o valor da região como instrumento de diversificação está maior do que nunca.”
Apesar disso, o volume de entradas de recursos nas bolsas europeias ainda está abaixo do registrado nos níveis recordes alcançados no início de 2026.
Emmanuel Makonga, estrategista de ações europeias do Barclays, afirmou que o interesse de investidores internacionais na Europa ainda é “seletivo”, sendo as ações de bancos a principal opção para a exposição europeia. Segundo ele, no início de julho o fluxo para ações europeias foi, em boa parte, “resultado de saídas dos Estados Unidos... ao invés de um interesse genuíno e direto pela Europa”. No entanto, com a temporada de resultados avançando, “temos confirmação de que além da demanda por diversificação pura, essa ampliação de alocação também tem base em fundamentos. As pessoas estão realmente buscando uma volta ativa ao mercado europeu.”
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